Visão Periférica

Em um outro post dissemos que a importância da visão para o esporte vai muito além de quantos graus o indivíduo usa nos óculos. Aqui abordaremos um assunto muito comentado e exigido por treinadores: a visão periférica.

Com raras exceções (o xadrez, por exemplo), a visão periférica pode ser determinante no desempenho em qualquer modalidade esportiva.

Diz a lenda que um dos principais diferenciais do Pelé, era justamente a visão periférica. Ele mesmo considera esta uma de suas melhores capacidades. Bem… eu nunca vi nenhum teste feito com ele que realmente comprovasse isso, mas esse tipo de passe (veja o vídeo) não se discute: é uma excelente visão periférica em ação!

 

em quase todos os esportes

A exemplo do que acontece no futebol, em demais esportes coletivos, as decisões de várias jogadas podem passar pela utilização da visão periférica. No basquete, por exemplo, um jogador responsável por um passe deve mapear toda a movimentação de companheiros e adversários, e encontrar o melhor momento e posição do jogador de sua equipe para o passe. Mas muitas vezes isso não acontece exatamente na sua frente, ou seja, acontece na periferia da sua visão. No vídeo abaixo podemos acompanhar um teste feito ilustrando esta situação. O jogador deveria ficar na entrada do garrafão. Ao seu lado existiam três aros. Ele foi instruído a bater bola e olhar para frente, até aparecerem luzes nos aros. O aro em que aparecesse a luz verde, seria seu alvo e o jogador deveria “passar a bola” naquele alvo. Acompanhe o resultado, é impressionante!

 

 

Este é um exemplo de uma excelente performance, de um jogador de alto nível.

E falando em alto nível aqui entra uma história interessante: olhe para as imagens destes quatro tenistas que dispensam comentários sobre suas performances. Tente encontrar o que há de comum entre elas.

 

tennis lokking at the ball

Percebeu? Todos eles estão olhando diretamente para a bola enquanto efetuam sua jogada. Mas você, sendo tenista ou não, deve imaginar que o ideal é rebater a bola onde o adversário não vá alcançá-la, certo? E como fazer isso olhando para a bola, que vem em altíssima velocidade? Isso mesmo. Usando a visão periférica.

Um jogador de tênis que não perde o posicionamento do seu adversário, aumenta consideravelmente suas chances de tomar uma boa decisão sobre aonde direcionar sua jogada. Por isso, além de observar diretamente a posição do oponente enquanto ele faz a jogada, acompanhá-lo com sua visão periférica é um excelente recurso.

Compreendendo este mecanismo no futebol, basquete e tênis e somada a informação que a visão periférica é especialmente boa em identificar movimentos, fica mais fácil entender como ela pode contribuir para a performance em várias outras modalidades esportivas.

Pense como é importante uma boa percepção da movimentação das pernas ou do tronco de um openente em uma luta. Através dela é possível antever um golpe e preparar uma defesa ou um contragolpe. Mas como não é uma boa ideia ficar olhando diretamente para as pernas do adversário, você já sabe a estratégia. Visão periférica!

 

é possível melhorar?

Dito isto, talvez você se pergunte: como eu posso melhorar minha visão periférica? Tenho duas notícias, e prefiro começar pela parte ruim:

Primeiro, sua visão periférica “vai diminuindo” com a idade.¹ Isso é medido através do campo de visão útil (Useful field of view, em inglês). Este é na realidade o seu campo de visão que você consegue perceber de acordo com a tarefa. Por exemplo, se no centro da sua visão existe algo que você deve prestar muita atenção, seu campo de visão útil tende a diminuir.

Ainda na parte ruim sobre melhorar a visão periférica, um professor da Universidade da California (UC Berkeley), Dr. Gerald Westheimer, testou algumas pessoas em tarefas que envolviam o uso da visão periférica. Nestes testes, ele via a performance em diferentes tarefas, por exemplo que testavam a percepção da distância mínima entre dois pontos na periferia, e utilizando a medida com o anel de Landolt (ou “C” de Landolt, ver figura), e concluiu que a acuidade na visão periférica não melhorou mesmo após 30 dias de sessões de treinamento.²

 

Landolt C

 

No entanto (e agora vem a notícia boa), o desempenho em outras tarefas pode melhorar, dando sinais que o treinamento da visão periférica pode sim ser benéfico. Em um outro trabalho, pesquisadores da Universidade de Houston, nos Estados Unidos, mostraram que o treinar a visão periférica pode melhorar a velocidade de leitura, especialmente por utilizar este recurso de nossa visão.³

Melhora ainda foi que conseguiram esta melhora no desempenho através de um treinamento utilizando uma tarefa mais simples, de identificação de conjunto de letras na periferia do campo visual. O legal disso é que conseguiram mostrar a transferência de uma tarefa para outra!

Vários outras tentativas de melhorar a performance na visão periférica foram bem-sucedidas. Dentre elas, algumas são de grande uso no esporte, por exemplo, a sensibilidade a contraste, muito importante para distinguir um objeto do fundo da imagem (a bola do campo, por exemplo), e a percepção de orientação (importante para facilitar a percepção da direção do movimento de um jogador).4 Ainda do mesmo modo que o campo de visão útil diminui com a idade, ele também pode melhorar com o treino!¹

A conclusão de uma ideia dessa é que a busca por métodos para treinar a visão periférica faz muito sentido, especialmente quando pensamos em treinar melhores maneiras de como utilizá-la, seja no esporte, seja na vida cotidiana.

 

Referências

¹K.K Ball, B.L Beard, D.L Roenker, R.L Miller, D.S Griggs 1988 Age and visual search: expanding the useful field of view Journal of the Optical Society of America A, 5, pp. 2210–2219

²Westheimer, G. (2001). Is peripheral visual acuity susceptible to perceptual learning in the adults? Vision Research, 41, 47–52

³Chung, S. T., Legge, G. E. & Cheung, S. H. 2004 Letter recognition and reading speed in peripheral vision benefit from perceptual learning. Vision Res. 44, 695–709.

4Strasburger H, Rentschler I, Juttner M. Peripheral vision and pattern recognition: a review. J Vis. 2011;11(5):13.

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